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A hora e a vez.

Ela é Verônica, mãe solteira, trabalha para sustentar a ela e ao filho. Nunca se queixou de trabalhar, e sempre até teve gosto por isso. Dava-lhe a liberdade de sair de casa, de ver o mundo e se sentir parte dele.
Em 1997, Rodrigo  tinha 7 anos, e ela uma oportunidade brilhante pela frente. Trabalharia como secretária de uma executiva, que além do salário, lhe pagaria um curso de línguas- inglês e espanhol- para ajudar nas conversas que teria com seus clientes. Entretanto, o trabalho e o curso consumiriam quase o seu dia inteiro. "O meu filho precisa de mim. Mas eu nunca tive acesso a nada disso... imagine: duas línguas diferentes, uma chefe chiquérrima que me apoia, um outro mundo! Eu quero isso!", Era diferente, era estranho. Tomar as rédeas de sua vida pela primeira vez, crescer um pouquinho- no intelecto, na vaidade- aquela era a hora.
Não para Rodrigo. No seu mundo de carrinhos e jogos houvera carinho e atenção materno também. Ele não entendia agora o porquê de ter que ficar na casa da "tia", aquela madrinha velha e solteira, a qual nada tinha pra ensiná-lo, nenhum afago de mãe, era nada familiar. Na sua mentalidade confusa e ingênua lhe batiam perguntas constantes sobre o amor de sua mãe, se ela não lhe queria mais. Ele nem entendia o porquê de ela estar longe. "É para o nosso bem, filhinho". Ele só sabia que ela estava feliz, mas não entendia que "bem nosso" era esse. Que de nosso não tinha nada. Era dela! Era só dela. Enquanto isso ele tinha que aguentar os programas de fofoca da sua tia, nenhum brinquedo, o tédio da tarde.
Passaram-se 13 anos, e agora Rodrigo era um homem. Estava construindo o homem. Verônica, uma senhora.
Estava em outro trabalho e com anseios de uma aposentadoria próxima, que viesse logo, acalmasse de vez a monotonia, a monocromia de sua vida. Sua rotina era Rodrigo, vivia por ele. Esperando um segundo de sua parada em casa, um segundo de piadas, um abraço pra iluminar seu dia. Agora era ele o vaidoso, crescente, iluminado, com senhoras oportunidades na janela. O tempo corria, e ele corria junto. Verônica o esperava na linha de chegada, mas tinha sempre mais uma volta que Rodrigo precisava concluir.
Ele dizia " Perae, mãe! Já falo com você." Já falo, já vejo, já te abraço, já te amo, pera só um pouquinho. Veronica se sentia com 7 anos, sem brinquedos e com milhões de perguntas na cabeça: Será que ele me ama? Será que ele lembra que eu existo? Mas que porra! O que mais eu tenho que fazer pra ele me ver?
Mas ela não tinha 7 anos, e sim tinha que entender que o ciclo ia e voltava. E agora via o porquê das perguntas de Rodrigo, tão envergonhadas e tão precoces sobre o amor dela naquela época, em 97. Com a sabedoria das experiências, Verônica transforma lentamente a raiva da liberdade de seu filho, a inveja de sua luz  em calmaria e entendimento.
O entendimento dessas tantas voltas, e de que um dia a velocidade dos dois vão estar igualadas, e eles vão poder dar as mãos, falar sobre o presente, o passado e o futuro. E caminhar pelo circuito.

Comments

( 1 comment — Leave a comment )
ext_138118
Sep. 6th, 2009 10:46 pm (UTC)
Ai, esse final foi lindo demais. Chorei litros.
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ninaoumah
ninaoumah

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